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A melhora estrutural do Ibovespa e o investimento em ações na gestão de patrimônio

Por Marcos Fritzen*,
em 17/09/2019

Em muitas avaliações recentes e palestras sobre investimentos escutamos os gestores, consultores, distribuidores e outros falarem sobre o Ibovespa. Agora que a Selic está baixa, a economia está voltando a se recuperar e o mundo – ainda – está calmo, faz sentido ter uma posição maior em ações. No entanto, ninguém fala da melhora estrutural que o Ibovespa teve, e hoje reflete o desempenho de um grupo de empresas MUITO MELHOR que 5 anos atrás. 

Muitos não se recordam, mas no final de 2013, a ainda BM&FBovespa anunciou uma mudança metodológica histórica no Ibovespa. Depois de 45 anos, a metodologia de como se calcula o principal indicador de performance do mercado de ações brasileiro foi alterada. Entrou em vigor uma nova metodologia em 06 de maio de 2014. Basicamente, o Ibovespa passou a dar mais peso para ações de grandes empresas, com maior free float – ações que não pertencem ao controlador – e deu mais peso para o volume financeiro negociado, em detrimento da quantidade de negócios, reduzindo o peso das ações mais especulativas. Com isto, o Ibovespa ficou mais parecido com o IBRX, outro índice do mercado brasileiro.

Quero chamar a atenção para o gráfico abaixo, onde ambos índices foram convertidos para o número 100 na data em que mudou a metodologia do Ibovespa e sua performance anterior e posterior, calculada a partir deste número.

grafico 1 ibov

O ponto vermelho mostra exatamente o dia da mudança. De lá para cá, não precisa nenhum cálculo estatístico para o leitor perceber que o Ibovespa passou a ser muito, muito parecido com o IBRX. Isto se deve à aproximação metodológica dos dois índices.​

À esquerda do ponto vermelho está o desempenho dos dois índices antes da mudança metodológica. Visivelmente diferentes. É interessante observar que no período 2010 a 2014 (finalzinho do segundo mandato do Presidente Lula e quase todo o primeiro mandato da Presidente Dilma), o IBRX manteve-se praticamente estável – “de lado” no linguajar financeiro -, ao longo de 4 anos e meio. Enquanto isto, o Ibovespa, claramente, passou por um período de bear market, com tendência de queda até a mudança metodológica.

Fica claro que não faz sentido avaliar a série histórica do Ibovespa para definir em que patamar está hoje em relação ao seu pico histórico. Ou seja, dizer que o Ibovespa subiu apenas 40% em relação ao seu pico histórico não faz sentido.

Para fazer uma análise mais justa, devemos refazer o passado do Ibovespa de acordo com a metodologia nova. Alternativamente, usar como proxy o desempenho passado do IBRX para refazer a série do Ibovespa. Não é perfeito, mas bastante razoável. As metodologias são similares e o comportamento dos índices desde 2014 quase idênticos.

O gráfico abaixo traz a série histórica do Ibovespa “ajustado ao IBRX”.  Neste gráfico ajustado, o pico do Ibovespa foi 60.000 pontos em 2008. Este pico chegou a ser superado em setembro de 2014, mais de um ano antes do processo de impeachment da Presidente Dilma, quando iniciou o atual ciclo de alta, e não em agosto de 2017, que é utilizado como o momento onde se rompeu o pico de 2008. E, atualmente, o Ibovespa está 70% acima do pico histórico. Importante observar também que o reflexo do desastre econômico do governo Dilma foi mais sentido na bolsa, entre setembro de 2014 e a data do impeachment. Neste período, a bolsa caiu 40% em função da recessão. E, do fundo do poço até agora, a valorização do Ibovespa foi de 170%.

Obviamente, esta análise não sugere se o Ibovespa está caro ou barato. Apenas comparamos, no passado, laranja com laranja. Está claro que as laranjas de hoje já estão bem maiores que as laranjas lá de 2008.

Investir em ações ainda é um tabu para o brasileiro. Depois de um bull market de 3 anos (2016-2019), o interesse de pessoas físicas por ações aumentou muito. Em 2019 atingimos recordes de investidores pessoas físicas em bolsa, recordes de captação em fundos de ações, dezenas de produtos novos sendo lançados todo mês. A dúvida que temos sempre é se devemos comprar ações neste momento ou não, já que muitos estão fora ainda. Por um lado, as coisas começam a melhorar no Brasil: taxas de juros caindo, inflação baixa, expectativas de inflação ancoradas, recuperação do emprego, privatizações, reforma da previdência aprovada, andamento da reforma tributária, redução do BNDES. Por outro lado, o mundo está ficando cada vez mais estranho. Muitos países só estão crescendo ou se mantendo em função da liquidez abundante criada com o quantitative easing dos bancos Centrais. E isto cria bizarrices como o fato de termos mais de USD 15 trilhões em dívidas soberanas e corporativas rodando com taxas de juros negativas. Vários governos com déficits estruturais nas contas públicas e necessidade de emitir dívidas começam a ter nestas uma fonte de receitas, e não mais de despesas, já que os investidores pagam para deixar dinheiro aplicado em títulos como os da Alemanha, Dinamarca e outros países. Em agosto de 2019, a Siemens emitiu USD 1,6 bilhões de dívida de 2 e 5 anos. Na de 2 anos, ela cobrou 0,31% de taxa dos investidores. Isto mesmo, pegou dinheiro emprestado e, ao invés de pagar juros, está recebendo juros. O passivo virou ativo e o ativo virou passivo. Não à toa, na Suíça, está havendo uma corrida para a aquisição de cofres. É mais barato deixar dinheiro num cofre que emprestar com juros negativos.

Reforçamos que a alocação em renda variável tem que ser feita com parcimônia, especialmente por pessoas (i) que já estão entrando na fase de consumo do seu patrimônio, (ii) com pouco conhecimento de renda variável e (iii) pessoas com pouca tolerância a oscilação dos preços (como você se sentiria se visse seus investimentos caindo 40% durante uma crise, por exemplo?). Os itens ii e iii podem ser trabalhados, e à medida que o conhecimento e a tolerância a riscos aumentem, o investidor pode, naturalmente, aumentar seus investimentos de renda variável, buscando aumentar no longo prazo o rendimento real de sua carteira de ativos.

Por fim, cabe salientar que aos poucos no Brasil também começa a aumentar o investimento em fundos passivos, os ETFs (fundos negociados em bolsa, do inglês Exchange Traded Funds). Com a melhora estrutural do Ibovespa, o próprio investimento nos ETFs deste índice garante ao investidor uma cesta de ações adequada e barata para se aproveitar da melhora do cenário para renda variável. Em outro momento, vamos falar mais sobre os ETFs.

*Marcos Fritzen é gestor de recursos com mais de 20 anos de experiência e sócio fundador da SameSide Gestão Patrimonial, onde atua como Diretor de Gestão de Investimentos.

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